A criança Francisco Alvarenga Calazans Albuquerque, com 4 anos e 5 meses de idade, apresenta diagnóstico de síndrome de Down e é assistida pela área de terapia ocupacional desde 24 de novembro de 2014. O acompanhamento é caracterizado por sessões individuais, com frequência semanal e duração de 60 minutos.

A criança apresenta o diagnóstico oftalmológico de astigmatismo hipermetrópico e a família refere que observou uma maior aceitação em relação ao uso dos óculos, principalmente na escola.

Atualmente, Francisco frequenta sala regular da educação infantil (Infantil I) no Colégio Franciscano Pio XII, no período vespertino.

Quanto ao desenvolvimento motor, Francisco apresenta hipotonia global, porém sem repercussão em seu desempenho funcional e, sob o aspecto ontogenético, a criança apresenta equilíbrios estático e dinâmico completos em bipedestação, representado pelo fato de deslocar-se por meio da marcha, de subir e descer inclinações, rampas e lances de escadas (apoio do corrimão), com necessidade de aprimoramento do equilíbrio.

Cabe ressaltar alguns materiais, os quais são explorados e apreciados pela criança, a fim de favorecer o aprimoramento da coordenação motora fina e estimular força de preensão, como por exemplo, brinquedos de pequenos encaixes (com supervisão a fim de garantir a segurança), objetos de construção (blocos de diferentes tamanhos e lego de tamanho grande), quebra-cabeças (com duas ou três peças), massa de modelar, areia cinética, materiais de pintura (pincel e tinta, giz de cera jumbo, lápis jumbo e triangular), adesivos e fitas, alinhavos, pinças, pegadores, tesoura com mola para apoio, entre outros. As propostas com materiais diversos são sempre supervisionadas com o objetivo de evitar que a criança leve os objetos à boca devido à alergia aos corantes.

Ao manusear materiais pequenos, se evidencia a exploração por meio das preensões de pinça lateral e pinça polpa a polpa.

Nas vivências relacionadas ao treino gráfico, não é recomendável o uso de pontilhados e tracejados e não é aconselhável o oferecimento de auxílio físico, como por exemplo, segurar na mão da criança para a realização dos traçados, na grafia das letras e dos números. Sugere-se o uso de canetinhas de cores claras, tais como, rosa, amarela, laranja, ou grifa texto a fim de facilitar o processamento visual e oferecer o modelo da letra ou do número para desenvolvimento da grafia.

É fundamental que as atividades oferecidas para a criança sejam apresentadas de forma a facilitar a visualização e consequente compreensão das mesmas, ou seja, evitar atividades/folhas que contenham muita informação visual e letras pequenas.

Ao manipular os lápis, preferencialmente jumbos e triangulares, se observa o predomínio da preensão de transição, 04 dedos (exceto o dedo mínimo), mas em alguns momentos, Francisco desenvolve a preensão tripódica ao realizar garatujas, traçados em diferentes sentidos e direções.

Quanto à coordenação visomotora, compreende o recurso de contornar os numerais e letras (vogais e letra inicial do nome) grafados de tamanho grande e com canetinha de cor clara. No entanto, demonstra intenção de rabiscar a atividade quando não há a oferta de uma recompensa, a qual pode ser um brinquedo ou jogo de sua preferência.

A partir dos pressupostos da Epistemologia Genética, no percurso do processo de construção cognitiva, a criança apresenta-se no período pré-operatório, nomeia as partes do corpo e as cores, o reconhecimento dos numerais até 5 encontra-se em processo de fixação, identifica as vogais, nomeia a letra inicial do nome, o qual também é capaz de reconhecer.

Quanto à comunicação, demonstra iniciativa comunicativa e de interação, com predomínio da expressão oral, preferencialmente uso de palavras isoladas. Utiliza gestos (dêiticos e representativos) como complemento, para se fazer compreender. Observa-se também uso de frases simples, com até três palavras, como por exemplo, “coloca água aqui ”.

No que se refere à audição, existe uma suspeita de perda profunda na orelha direita que se encontra em processo de investigação, no entanto, a criança localiza os estímulos sonoros em ambos os lados.

Julgo relevante enfatizar a necessidade de se considerar o tempo de resposta apresentado pelas crianças com síndrome de Down, por essas apresentarem o processamento mais lento.

Cabe destacar, que a linguagem pode ser estimulada quando não oferecemos o que acreditamos que a criança deseja, assim, incentiva-se que a mesma faça uso de estratégias para se fazer entender por meio de emissões vocais preferencialmente. Para se dirigir à criança, aconselhamos que a comunicação seja realizada de frente para a mesma e na altura dos olhos, sempre fazendo uso de palavras corretas (não utilizar fala infantilizada ou no diminutivo, fazer uso adequado dos pronomes em primeira pessoa e nunca em terceira, como por exemplo, eu, você, meu e seu).

Estudos indicam que a memória auditiva de curto prazo é mais breve nas crianças com essa síndrome, o que leva a dificuldades na compreensão de informações, principalmente se essas são fornecidas de forma consecutiva e muito rapidamente. Assim, torna-se possível facilitar a compreensão por meio de gestos ou figuras, associados às instruções verbais. Nessa perspectiva, essas crianças se beneficiam quando utilizados recursos visuais para o oferecimento de informações, devido apresentarem capacidades de processamento e de memória visual menos prejudicadas do que as habilidades de processamento e memória auditivas.

Em relação às atividades de vida diária, Francisco é incentivado a participar de todas as tarefas. A criança alimenta-se com as mãos e utiliza o garfo e a colher (infantil de metal) para pegar o alimento e levá-lo à boca. Recomendo que a criança seja estimulada em todas as refeições, com a finalidade de otimizar a autonomia e aprimorar a coordenação no manuseio de utensílios.

Indica-se a continuidade do uso de copo com canudo e que seja incentivada a utilização do copo comum, a fim de garantir a autonomia e promover um posicionamento adequado de lábios.

No que se refere ao vestuário, a criança retira agasalho aberto na frente, calça com elástico na cintura, meias e sapatos. Participa de algumas etapas para colocar as vestimentas, mas ainda se faz necessário auxílio físico.

Sugiro o incentivo para maior participação nas atividades de vida diária, como por exemplo, alimentação, banho, higiene oral, troca de vestuário, incluindo os fechos, por meio de comando verbal e ajuda física quando necessária. Sempre realizar junto com a criança as atividades e evitar fazer por ela.  

A criança raramente manifesta vontade de urinar e evacuar, mas quando lembrada, utiliza o banheiro com supervisão. Os acidentes são esporádicos.

Quanto ao comportamento, Francisco explora toda a sala de atendimento, compreende as brincadeiras, demonstra preferências e desejos no decorrer das propostas.

Recomenda-se a continuidade do acompanhamento de terapia ocupacional e que o tratamento priorize vivências e orientações familiares no que se refere ao ganho de autonomia e independência nas atividades de autocuidado, bem como, o aprimoramento da coordenação motora e habilidades motoras finas, a otimização de habilidades cognitivas, tais como, atenção, concentração, memória, funções executivas e iniciativa a fim de favorecer o desenvolvimento global e a aprendizagem.

Coloco-me à disposição para eventuais esclarecimentos, para integrar informações e melhor cercar as necessidades do Francisco.

Atenciosamente,
Renata Prates Tobias
CREFITO-3/8722-TO
Terapeuta Ocupacional

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